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Se alguém lhe convidasse para assistir à apresentação de um pianista no Salão Nobre do Teatro Santa Izabel e, chegando lá, à espera da entrada triunfal de um músico de fraque, smoking ou terno; de repente você percebe que quem está tocando com maestria o instrumento é um rapaz novo, trajando calça jeans, camiseta de malha e um par de tênis All Star. O que você pensaria?
Descrever o mais novo fenômeno da cena instrumental brasileira, considerado por muitos o menino prodígio pernambucano, que aos dezessete anos já fazia improvisações em cima de clássicos da música erudita, mpb e jazz , não é uma tarefa fácil. Pode parecer exagero para quem nunca foi a uma de suas apresentações ou “shows” – que é como o próprio Vitor Araújo denomina o seu concerto nada tradicional ao piano; mas o fato é que ele vem emocionando as plateias e causando controvérsias por todos os lados desde 2006.
Seu estilo livre e nada convencional de interpretar obras como Frevo, do maestro Marlos Nobre, que teve o vídeo disponibilizado no YouTube, já lhe rendeu várias críticas. Sem se perturbar com os comentários sobre o seu trabalho, Vitor impressiona pela ousadia e determinação presentes num rapaz em início de carreira. Discussões à parte, o fato é que depois que a famosa re-interpretação foi parar na Internet, o rapaz deu um salto para o rol da fama.
Sua experiência com a música começou aos nove anos no Conservatório Pernambucano de Música, ou melhor, aos sete, quando os pais observaram sua proeza de tirar músicas de ouvido em um pequeno teclado que ganhou de presente. Ezabel Barros, mãe de Vitor, comenta: “Vimos que era o que ele mais gostava de fazer quando era criança, então resolvemos estimulá-lo e estamos aqui, apoiando no que ele precisar em sua carreira”.
Daí para frente, sua participação passou a ser constante em importantes festivais e mostras de música, entre eles o Torneio Josefina Aguiar (Melhor Intérprete de Música Brasileira) e o Concurso Magda Taggliaferro, em São Paulo, onde recebeu Menção Honrosa. Mas a projeção nacional veio com a cobertura da mídia na 4ª. Mostra Internacional de Música de Olinda (MIMO) em 2007, onde se apresentou junto a artistas consagrados como Egberto Gismonti e Naná Vasconcellos. O evento ainda contou com a presença do maestro Isaac Karabtchevsky, ícone da música erudita internacional. Despreocupado com o visual, usando o de sempre, Vitor arrancou aplausos acalourados do público que lotava o Convento de São Francisco, tocando, além de Heitor Villa-Lobos, Lenine, Chico Buarque e Luiz Gonzaga. Além de ser ovacionado pelos presentes, o talento de Vitor o levou à conquistar Jô e plateia num programa exibido em outubro de 2007.
Quanto à polêmica em torno do seu nome, o rapaz sempre diz que toca por amor e não tem a intenção de irritar ninguém. Mas confessa não conseguir executar os temas como Bachianas nº 4, de Villa-Lobos, sem fazer o que chama de “citação”. Adiciona compassos, misturando, na mão esquerda, notas de uma das partes da música e, na mão direita, notas de outra parte. “Estamos acostumados a achar que o bom é o complexo, mas é o simples que me preenche – disse uma vez à plateia”. Entre as suas intervenções criativas durante interpretações de canções clássicas, destaca-se o arranjo para Asa Branca, de Gonzagão e Humberto Teixeira. O resultado realmente impressiona pela beleza e também está disponível em um vídeo na web.
Quando é questionado sobre o que o leva a fazer essas releituras de músicas do seu repertório, Vitor responde: “É o meu dedo que vai sozinho. Não sei o que acontece. A cada vez, a música fica diferente. Não toco com partituras porque acho que ela me prende. Minha memória é boa, então prefiro tocar de cabeça. Querem que eu vá estudar na Europa, mas não sei se me encaixo nesse modelo. Eu me preencho com o público. Já levei muitas broncas, é o que mais levo na vida, mas não me importo mais”. Seu pai, o produtor Túlio Montenegro, comenta que sempre fica muito tenso nas apresentações de Vitor. “Tudo é muito natural para ele, nunca sei o que vai fazer e penso que um dia vou ter que arrancá-lo de dentro do piano. Ele é imprevisível!”.
Canções como Dança do Índio Branco, de Heitor Villa-Lobos, Comptine d’um Autre Eté, de Yan Tiersen, Paulistana nº 1, de Cláudio Santoro, Sonatina para Piano, do maestro Edino Krieger, além de músicas de Chico Buarque (Samba e Amor), Luiz Gonzaga (Asa Branca) e outras de sua autoria; fazem parte da seleção de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), CD/DVD gravado ao vivo no Teatro de Santa Isabel, em dezembro de 2007. Na ocasião, o público de sua cidade natal pôde presenciar um pianista tocar sentado, não no banco que acompanha o piano, mas em cima do instrumento. Algumas vezes de pé com os pés nas teclas, Vitor deseja tocar seu piano por inteiro. Explorando todas as suas intenções – o “pianista endiabrado”, um dos muitos apelidos que vem recebendo da imprensa, se destaca pelas novas roupagens que dá ao barroco, passando pelo romantismo do século 19 e acabando na desconstrução de músicas como Paranoid Android, do Radiohead, conjunto de rock inglês do qual é fã. Não podemos esquecer de alguns toques, aqui e ali, de elementos jazzísticos que, aliás, é a sua preferência musical.
Até pouco tempo atrás era bacharelando em Piano pela Universidade Federal de Pernambuco, mas teve que abandonar o curso devido à agenda bastante movimentada. “O Vitor não tem mais tempo para seguir uma universidade, ele tem viajado muito, passa muitos dias fora. Ele achou melhor conciliar tanto compromisso com aulas particulares quando está em Recife”, comenta Ezabel. A família nos conta que sente saudades da fase menos profissional, quando o rapaz passava horas debruçado ao piano, estudando e compondo músicas como A Última Sessão e Valsa para Lua. “Recentemente, Vitor estruturou um estúdio próprio em Olinda, então quando está por aqui, fica um ou dois dias gravando e organizando seus novos projetos. Quase não o vemos”, explica Túlio.
A Última Sessão, de autoria do próprio Vitor, é sua ligação entre a música e sua outra paixão – os filmes. Cinéfilo inveterado, o artista autorizou a utilização da composição que fez para um curta-metragem de Wilson Freire (Feliciano à espera da última sessão) na trilha do documentário
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Outro destaque sobre o seu envolvimento com o cinema está no curta Superbarroco, de Renata Pinheiro, filme vencedor do Festival de Brasília e único representante brasileiro na prestigiada Quinzena dos Realizadores, no Festival de Cannes em 2009.
Quanto aos novos projetos, o pai se entusiasma dizendo que Vitor está numa nova fase com a parceria da Banda Rivotrill: “São todos excelentes instrumentistas, Júnior Crato (flauta), Lucas dos Prazeres (percussão) e Rafa Duarte (baixo); têm muita sintonia com o trabalho de Vitor e o show está super interessante”. A atriz e produtora cultural, Virgínia Brasil, que assistiu à apresentação deles em agosto deste ano, no Teatro da UFPE, rasga elogios à performance do pianista: “Ele é polêmico. Muita gente o critica porque ele muda as músicas, mas é sensacional e o público realmente vibra. Ele é bem especial”. Carol Lemos, coreógrafa, comenta a forma serelepe como brincava com uma miniatura de piano que utilizou durante a apresentação para descontrair o som do piano tradicional.
É neste nosso reduto de multiplicidade de ritmos e efervescência cultural que vemos despontar mais um rosto desta nova geração de artistas, livre dos conceitos pré-estabelecidos nas gerações anteriores. “Ele se desenvolveu naturalmente nas suas concepções de arte, ninguém estipulou nada. Eu costumo dizer que Vitor foi talhado para isso, ele não faria outra coisa em sua vida, porque o que realmente importa para ele é a reação do público”, acrescenta seu pai.
Longe de se considerar um virtuose ou mesmo um menino notável, Vitor Araújo é um artista de palco. “As pessoas têm que vê-lo e ouvi-lo ao mesmo tempo, pois o seu carisma está no conjunto da música aliada à sua expressividade cênica”, diz Túlio.
Por essas e outras sobre Vitor e que, umas poucas linhas não serão suficientes, é que aconselho aos fãs de música instrumental a esperar a próxima oportunidade para conhecê-lo, lá no palco, aonde ele se sente realmente à vontade para realizar sua música e contar suas experiências de jovem e prodigioso artista.
Por: Ana Elena Janovitz